2021.05.14 | Epistemologia |

Conceção epistemológica de analiticidade

O quarto capítulo do livro The Philosophy of Philosophy de Tim Williamson é dedicado à conceção epistemológica de analiticidade. A principal questão que Williamson trata nesta parte é a seguinte: o que está epistemicamente disponível simplesmente com base da competência linguística e conceptual? Por outras palavras, o que podemos epistemicamente assentir simplesmente com base do entendimento e da apreensão? A resposta de Williamson é direta: Nada! Isto porque a ligação entendimento-assentimento falha. Assim, o seu principal objetivo é mostrar que essas ligações falham (mesmo para casos paradigmáticos de analiticidade).

O que significa dizer que uma frase é analítica no sentido epistemológico? De forma rigorosa, a noção epistemológica de analiticidade definida para frases pode ser apresentada desta forma:

Uma frase \(F\) é analítica se, e só se, necessariamente, quem quer que seja que entenda \(F\) assente \(F\).

Por exemplo, se a frase “Toda a raposa é uma raposa” é analítica neste sentido, então há uma ligação entendimento-assentimento da seguinte forma:

(UA) Necessariamente, quem quer que seja que entenda a frase “Toda a raposa é uma raposa” assente essa frase.

Contudo, se um agente A falha a assentir essa frase, então A falha a entendê-la. Ou seja, a falha de assentimento da frase é constitutivo da falha de entendimento de toda essa frase. Mas o que significa entender uma frase? De forma simples, consiste em ser linguisticamente competente; em perceber os constituintes de uma frase e a sua sintaxe, etc. E o que significa assentir a uma frase? Num contexto em que a frase \(F\) expressa a proposição \(p\), assentir a \(F\), para alguém que a entende, é algo como acreditar \(p\) sob a aparência de \(F\). Por exemplo, assentir a frase “A relva é verde,” para alguém que a entenda, é algo como acreditar que a relva é verde sobre a aparência dessa frase.

Esta ligação entendimento-assentimento tem aplicações, por exemplo, na lógica dado que podemos generalizar essa ligação para argumentos e regras de inferência. Além disso, seguindo Paul Boghossian, tal ligação entendimento-assentimento dá origem ao seguinte projeto natural da filosofia: tentar explicar a “metodologia de poltrona” da filosofia como baseada em algo como a ligação entendimento-assentimento. Ou seja, a nossa pura competência linguística e conceptual ordena o assentimento em algumas frases e inferências que formam o ponto de partida para a investigação filosófica.

Será isto plausível? Tim Williamson argumenta que não, que esse projeto falha e que há contraexemplos para (UA). O seu argumento contra a ligação entendimento-assentimento começa com uma verdade lógica elementar:

  1. Toda a raposa é uma raposa. [\(\forall x (Rx \to Rx)\)]

Suponha-se que um dado sujeito, Pedro, está convencido que (1) tem importação existencial. Assim, (1) é verdadeira só se existe ou existiu uma raposa. Assim, (1) implica logicamente:

  1. Há pelo menos uma raposa. [\(\exists x Rx\)]

Além disso, devido a teorias da conspiração, o Pedro forma a crença bizarra que nunca existiu qualquer raposa. Desta forma, o Pedro tem a crença que (2) é falsa. Ora, uma vez que ele nega (2) e a considera como uma consequência lógica de (1), ele também nega (1) e, por isso, não assente (1). Contudo, o Pedro entende (1), sendo linguisticamente competente. Afinal, ele não tem perspetivas semânticas incorretas sobre “raposas,” apenas tem algumas perspetivas não-semânticas bastante invulgares sobre raposas. Deste modo, temos um contraexemplo que falsifica (UA). Para aprofundar este e outros argumentos sobre a conceção epistemológica de analiticidade, pode ver aqui um handout que escrevi com algumas ideias.

Novidades: We are happy to announce that, to celebrate the 25th anniversary of the journal Disputatio, Prof. Timothy Williamson (Oxford) will give a lecture on “Degrees of Freedom: Is Good Philosophy Bad Science?” on October 7th, at 16h00 Lisbon time (UTC/GMT+1h). https://t.co/2U7oCeleBi |