2020.11.16 | Epistemologia |

Argumento cético sobre a perceção

A perceção é o processo pelo qual adquirimos informação acerca do mundo usando os nossos cinco sentidos. Além disso, todo o nosso conhecimento empírico está fundamentado em como vemos, ouvimos, tocamos, cheiramos e provamos o mundo à nossa volta. Mas estamos justificados nas nossas crenças percetivas? Por exemplo, quando percecionamos um objeto físico, como podemos saber que estamos realmente a percecioná-lo, e não a alucinar ou sonhar, nem a ser vítimas de uma matrix ou de génio maligno? Sendo o ‘mundo exterior’ tudo o que não faz parte dos nossos conteúdos mentais, será que a perceção nos poderá dar conhecimento ou crenças justificadas sobre o mundo exterior (sobre coisas fora de nós mesmos)? Se não, porquê? Se sim, de que forma?

Pode-se construir um argumento cético sobre a perceção com o objetivo de mostrar que as nossas crenças percetivas não são justificadas. Versões deste argumento aparecem, p.e., nas Meditações de Descartes. Esse argumento introduz algum tipo de hipóteses céticas (HC). Como exemplos de HC temos os cenários do Sonho, Génio Maligno (de Descartes), Cérebro numa Cuba (de Putnam), etc. Estas HC são cenários em que o sujeito está radicalmente enganado acerca do mundo exterior, mas mesmo assim a sua experiência percetiva do mundo exterior é exatamente como seria caso não fosse radicalmente enganado. Tendo em conta as várias HC, as nossas experiências percetivas do mundo exterior são ou podem ser qualitativamente indistinguíveis daquelas de um observador normal. Mas, se isso é o caso, com que base podemos distinguir uma experiência genuína do mundo exterior de uma experiência ilusória?

As HC chamam a nossa atenção para uma distinção crucial entre aparência e realidade: como as coisas nos parecem percetivamente não é necessariamente como as coisas são realmente. Ou seja, as coisas podem parecer iguais, embora realmente sejam diferentes. Assim, se sabemos alguma coisa sobre o mundo exterior, esse conhecimento deve ser indireto. Pois, o que está diante de mim não é o próprio mundo, mas apenas essas experiências percetivas. Assim, sabemos e temos crenças justificadas sobre o mundo exterior só se sabemos e estamos justificados sobre essas nossas experiências percetivas. Mas será que temos justificação para isso? Formulemos o argumento cético passo-a-passo.

No primeiro passo do argumento apela-se ao princípio de acesso indireto. Ou seja, há um “véu de perceção” entre nós e os objetos externos. Assim, não temos um acesso direto ao mundo, mas sim um acesso que é mediado pelas experiências sensoriais (também designadas como “perceções” ou “ideias”). O caráter dessas experiências pode depender de vários tipos de fatores, como as condições dos órgãos dos sentidos, estimulação direta do cérebro, etc).Dessa forma, nada está diretamente presente à mente na perceção, exceto as experiências percetivas. Esta tese é defendida, por exemplo, por David Hume, John Locke, e Descartes.

Hume argumenta (no livro Investigações sobre o Entendimento Humano, p.118) que não podemos confundir a perceção de um objeto com esse objeto. Por exemplo, a perceção de uma árvore e a própria árvore não são a mesma coisa. O argumento de Hume pode resumir-se desta forma: se a perceção de uma árvore e a própria árvore são a mesma coisa, então o seu tamanho não se altera em função da nossa perspetiva. Mas o seu tamanho altera-se em função da nossa perspetiva. Logo, a perceção de uma árvore e a própria árvore não são a mesma coisa.

De forma semelhante, Locke (no livro An Essay Concerning Human Understanding, 2.8.8) defende que aquilo que é imediatamente ou diretamente percecionado é sempre uma sensação ou ideia, e nunca o próprio objeto estimulante. Locke argumenta que para um sujeito \(S\) ter uma certa experiência percetiva, não é causalmente necessário que uma coisa física estimule os recetores sensoriais de \(S\). Isto porque uma experiência percetiva pode ser causada por um génio maligno ou pela estimulação direta do cérebro (como na HC do cérebro numa cuba). Ora, se isso é verdadeiro, então nenhum \(S\) pode saber, unicamente a partir da experiência percetiva, que está realmente a percecionar uma coisa física. Pois, para sabermos que estamos realmente a percecionar uma coisa física, temos de saber que essa coisa é uma causa da experiência percetiva. Mas, assim, se nenhum \(S\) pode saber, unicamente a partir da experiência percetiva, que está realmente a percecionar uma coisa física, então nenhuma coisa física é percecionada diretamente. Logo, nenhuma coisa física é percecionada diretamente.

Também Descarte aceita na Meditação VI que as ideias são os únicos objetos imediatos ou diretos da experiência sensível, e não as coisas físicas. Para Descartes uma ideia é uma representação mental de um objeto (ainda que este não exista). Assim, para Descartes só percebemos clara e distintamente a ideia de objetos físicos, não os próprios objetos físicos. Mas é possível que a origem de tais ideias (representações mentais) sobre o mundo se devam a outros fatores (como sonhos vívidos, génios malignos, etc) que não o próprio mundo. Assim, como podemos estar certos que as nossas ideias sobre o mundo foram causadas por coisas físicas e não por um génio maligno? Será que tais ideias sobre o mundo exterior se assemelham a algo que nos é exterior? Que razões ou evidência temos para isso? Levantar essa questões leva-nos ao segundo passo do argumento cético sobre a perceção.

O segundo passo do argumento cético apela ao princípio de meta-evidência. De acordo com esse princípio, se o nosso único acesso ao mundo exterior é mediado por experiências percetivas potencialmente enganadoras (dada a possibilidade das HC), devemos ter alguma garantia ou evidência de que essas experiências em que confiamos não são ilusórias ou enganadoras. Ou seja, só devemos confiar nas experiências percetivas se tivermos algumas boa razão para pensar que são verídicas. Assim, se não temos alguma boa razão para pensar que as nossas experiências percetivas são verídicas, não estamos justificados nas nossas crenças percetivas.

No terceiro passo do argumento advoga-se que há ausência de evidência. Ou seja, parece que não há forma em que pudéssemos ter qualquer evidência para a fiabilidade das experiências percetivas sem confiar em outras perceções. Deste modo, não há forma de verificar a fiabilidade da perceção sem cometer petição de princípio. A esse propósito Hume (no livro Investigações sobre o Entendimento Humano, pp.119-120) faz a seguinte pergunta retórica: Como sabemos que as perceções são causadas pelos objetos exteriores se nós não temos acesso senão às perceções que se encontram na nossa mente? Simplesmente não o sabemos. Isto porque se sabemos realmente que o mundo exterior existe, então conseguimos estabelecer uma relação de causalidade entre os conteúdos da nossa mente e a existência de objetos exteriores. Mas não conseguimos estabelecer essa relação de causalidade (pois, apenas temos acesso aos conteúdos da nossa mente). Logo, não sabemos realmente que o mundo exterior existe (nem que não existe).

Com base nos passos anteriores, podemos apresentar um argumento cético contra a justificação das nossas crenças percetivas:

  1. Nada está diretamente presente à mente na perceção, exceto as experiências percetivas. [princípio de acesso indireto]
  2. Se o princípio de acesso indireto é verdadeiro, então o princípio de meta-evidência é verdadeiro.
  3. Assim, se não temos alguma boa razão para pensar que as nossas experiências percetivas são verídicas, não estamos justificados nas nossas crenças percetivas. [princípio de meta-evidência]
  4. Mas, não temos qualquer boa razão para pensar que as nossas experiências percetivas são verídicas. [ausência de evidência]
  5. Logo, não estamos justificados nas nossas crenças percetivas.

Além disso, se o conhecimento requer justificação, a conclusão 5 implica que as nossas crenças percetivas não podem constituir conhecimento. Mas se aceitamos que muitas das nossas crenças percetivas constituem conhecimento e estão justificadas, não podemos aceitar alguma premissa no argumento. Mas qual?

David Hume aceita esse argumento. Mas, apesar de não termos justificação epistémica para as nossas crenças percetivas, salienta que podemos ter ainda assim justificação prudencial para tais crenças. Hume defende que não devemos abandonar, por razão pragmáticas, as nossas crenças na existência do mundo exterior. Pois, abandonar essas crenças tornaria, na prática, a nossa vida impossível.

Mas caso se pretenda rejeitar a conclusão 5, há várias possibilidades. Uma dessas possibilidades é negar a premissa 1 apresentando uma solução metafísica e dizendo algo sobre a natureza da perceção. Nessa linha de argumentação procura-se defender que os objetos do mundo estão de facto diretamente presentes à mente na perceção. Ou seja, procura-se resolver o problema do ceticismo ao fechar a lacuna entre aparência e realidade, ao tornar os objetos comuns (como mesas e canetas) diretamente presentes à mente. Essa solução metafísica pode ser apresentada de diferentes formas. Por um lado, seguindo Thomas Reid, pode-se negar a premissa 1 com a teoria do “realismo direto”. Por outro lado, seguindo George Berkeley, pode-se negar 1 com a teoria “idealista”. Apesar de serem soluções muito diferentes, ambos aceitam que mesas e canetas estão de facto diretamente presentes à mente na perceção. Outra via diferente de refutação do argumento cético passa por negar a premissa 4 ao estabelecer-se requisitos normativos para a crença justificada e a sua satisfação. É nessa base que Descartes, com o seu fundacionalismo clássico, e que Locke, com um argumento para a melhor explicação, negam a premissa 4. Mas qual é melhor resposta para este tipo de ceticismo?

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