2021.03.10 | Epistemologia |

Aposta de Pascal

No livro Pensamentos, Blaise Pascal escreve o seguinte:

“Examinemos este ponto, e digamos: «Deus existe ou não existe». Para que lado nos inclinaremos? A razão [epistémica] não o pode determinar. Mas é preciso apostar. Não é coisa que dependa da vontade. Já estais embarcados. Que escolha fareis? A vossa razão não será mais lesada por escolherdes uma coisa de preferência à outra, pois é necessariamente forçoso escolher. Eis um ponto assente. Mas a vossa felicidade eterna? Ponderemos o ganho e a perda, escolhendo Deus. Ponderemos estes dois casos: se ganhardes, ganhareis tudo; se perderdes, não perdereis nada. Apostai, pois, que Deus existe, sem hesitardes.”

Tal como se pode constatar, Pascal tenta dar aos ateus e agnóstico, que atribuem uma probabilidade baixa à existência de Deus, razões prudenciais para se acreditar em Deus. Para isso, argumenta que um agente que segue a sua estratégia maximiza a sua utilidade esperada. Com essa estratégia calcula-se a utilidade esperada de um ato \(\phi\) ao (I) multiplicar a utilidade e a probabilidade de cada resultado associado com \(\phi\), ao (II) subtrair os custos respetivos, e (III) ao somar o total. Este cálculo está associado a decisões sob risco.

De acordo com Pascal, a utilidade esperada que um agente tem para a sua crença em Deus é infinita, uma vez que a utilidade de acreditar em Deus, dado a suposição que Deus existe, é infinita, e a utilidade de acreditar em Deus, sob a suposição que Deus não existe, é alguma quantidade finita. Pelo contrário, a utilidade esperada de não se acreditar em Deus é meramente finita, uma vez que apenas os crentes irão maximizar a possibilidade de uma vida eterna, numa perfeita felicidade com Deus e com os outros, sem fim; além disso, ao ser crente há mais probabilidade de se estar consciente do amor de Deus, de ajudar os outros a alcançar a salvação, etc. Pelo contrário, o descrente não irá maximizar tais resultados.

Com base nestas ideias pode-se formular o argumento, conhecido como a “Aposta de Pascal,” da seguinte forma:

  1. Ou Deus existe ou Deus não existe, e S acredita em Deus (aposta na sua existência) ou S não acredita em Deus; sendo que a utilidade resultante de cada uma destas possibilidades é a seguinte, onde \(f\)1, \(f\)2 e \(f\)3 são valores de utilidade finitos que não precisam de ser especificados:
Deus existe Deus não existe
S acredita em Deus \(\infty\) \(f\)1
S não acredita em Deus \(f\)2 \(f\)3
  1. A racionalidade prudencial requer que a probabilidade que S atribui à existência de Deus seja > 0. [Mesmo que existam fortes evidências contra a existência de Deus, S está prudencialmente justificado a atribuir p.e. a probabilidade de 0.00001 à existência de Deus].
  2. A racionalidade prudencial requer que S realize o ato com a máxima utilidade esperada (caso houver).
  3. Sendo \(p\) a probabilidade que Deus existe, a utilidade esperada UE, dado 1 e 2 de S acreditar em Deus e de S não acreditar em Deus é a seguinte:
    • UE(S acredita em Deus) = (\(\infty\) \(\times\) \(p\)) + (\(f\)1 \(\times\) (1 - \(p\))) = \(\infty\)
    • UE(S não acredita em Deus) = (\(f\)2 \(\times\) \(p\)) + (\(f\)3 \(\times\) (1 - \(p\))) = \(f\)4
  4. \(\therefore\) Uma vez que \(\infty\) > \(f\)4, o ato com a máxima utilidade esperada é S acreditar em Deus. [De 4]
  5. \(\therefore\) A racionalidade prudencial requer que S acredite em Deus. [De 3 e 5]

Será este um bom argumento? Como crítica à premissa 1 pode-se questionar a tabela em consideração de duas formas: por um lado, seguindo a teoria do teísmo cético, vale a pena questionar sobre como se pode saber que a recompensa é \(\infty\) quando Deus existe e S acredita em Deus. Talvez Deus tenha uma razão também para recompensar todos com \(\infty\), mesmo quem não acredita em Deus. Pode-se questionar igualmente se Deus beneficia de igual forma com \(\infty\) os crentes que têm fé apenas por interesse mesquinho da recompensa e aqueles crentes que têm fé de forma desinteressada ou honesta. A tabela formulada por Pascal não permite dar conta destas subtilezas.

Por outro lado, a tabela em consideração apenas considera o Deus teísta, mas por que razão não se considera igualmente muitas outras hipóteses, como algum Deus deísta (que p.e. não dava qualquer recompensa mas que poderia castigar infinitamente os teístas), ou um Deus malévolo (que só dava recompensa infinita aos maus ou aos descrentes)? Com esta objeção dos vários deuses sustenta-se que a tabela apresentada por Pascal é muito incompleta uma vez que não considera outras possíveis hipóteses de divindade e os seus respetivos valores de utilidade; todavia, caso se considere essas várias hipóteses, já não será nada óbvio que a máxima utilidade esperada é acreditar no Deus teísta.

Quanto à premissa 2, alguns ateus argumentam, como o caso de Michael Martin (2010), que a existência de Deus teísta é de alguma forma conceptualmente impossível. Este tipo de argumentação visa fundamentar que um dos atributos divinos é em si incoerente ou que a combinação de atributos é inconsistente. Ora, se tais argumentos forem bem-sucedidos, então a probabilidade da existência de Deus é zero, isto é, \(p\) = 0. Mas, assim, os cálculos da utilidade esperada de se acreditar em Deus e não acreditar em Deus serão ambos finitos e sem diferença relevante; ou seja,

Como nada nesses cálculos implica que \(f\)1 > \(f\)3, então não se segue que S tem um requisito prudencial para acreditar em Deus.

Por fim, pode-se ainda fazer uma objeções de caráter moral, seguindo William James (2010: 143):

“sentimos que uma fé (…) adotada voluntariamente depois de um cálculo tão mecânico careceria de alma interior da realidade da fé; e se estivéssemos nós próprios no lugar da divindade, provavelmente teríamos um prazer especial em impedir a crentes deste calibre o acesso à recompensa infinita”

Mas serão estas objeções plausíveis? Não haverá forma de contornar estas objeções? Para uma discussão dessas questões clique aqui.

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